Eu estava na água. Não sei dizer
se era um rio, um lago, uma piscina ou um copo.
Batia meus pés freneticamente
tentando manter minha cabeça acima da superfície, para que eu conseguisse
minimamente puxar algum ar. O desespero por não conseguir encostar os pés no
chão já me dominava, e estava impossível me manter calma.
Não sabia como me acalmar. As
ondas de água que chegavam até mim eram causadas pelo bater dos meus pés e
braços. Não haviam outras ondas senão aquelas.
Quando percebi aquilo, eu voltei
para mim.
Tive uma epifania.
Eu poderia continuar a me debater
e me afogar no mar das minhas dores para sempre, me desesperando, esperando uma
ajuda externa, culpando todos os outros pelo “mal” que me causaram, e deixando
minha própria vida estagnar, quando essas pessoas nem sequer devem saber que
fazem parte do meu mar de mágoas; ou eu poderia me acalmar. Respirar fundo, e
deixar meu corpo leve, o que me faria boiar sobre a água.
O meu problema na verdade nunca
foram as situações externas, sempre o interno: caótico, bagunçado e
desequilibrado.
Nem sempre as ações das pessoas
são ataques pessoais, mas fiquei tão acostumada a levar para o lado pessoal que
percebo como é difícil para eu interpretar ou entender o que as pessoas tentam
me dizer, e lá vou eu novamente me afogado em copo d’água.
E digo isso, porque esse copo
está cheio, e continuar me debatendo, pensando em coisas que aconteceram a 2,
5, 7, 10, 20 anos atrás não está me trazendo resultado bom algum, e tem me
impedido de evoluir, dado à minha dificuldade em perdoar e deixar de guardar
rancor. Sem sequer me dar conta que tudo isso só faz mal a mim, e não a outrem.
Isso ME impede de seguir em frente. Alias, “isso” não, EU me impeço de seguir
em frente. E, sinceramente, estou cansada de viver de passado.
Estou cansada de querer ficar
imaginando como teria sido se eu pudesse voltar no tempo e fazer algo pra
mudar. Não dá pra voltar. Não dá pra consertar. Se é que tem algo pra ser
consertado. Eu entendo que todos nós, magoados e feridos, fizemos o que achamos
certo à época: fosse seguir o coração num “amor proibido”, fosse fazer o outro
“pagar” por sofrimento e humilhação, fosse por achar que estava “educando”,
fosse por achar que estava “servindo a Deus” da melhor maneira, fosse por
querer “proteger o próprio coração”. Cada um tinha sua causa, e estava lutando
por ela. As coisas que aconteceram comigo e que me atingiram foram danos
colaterais. Danos, porque danificaram coisas em mim, que estou bravamente
lutando para reconstruir. Minha paz, inclusive.
Mas tá tudo bem, porque agora eu
entendo isso. Não foi nada pessoal. Todo mundo estava tentando fazer o seu
melhor e ensinar o que era melhor. Mesmo agora entendendo que nós não sabemos
de nada.
Vamos crescendo e absorvendo
essas toxinas limitantes, que fazem nós acreditarmos que não somos dignos de
amor, ou de perdão, ou que não somos dignos de paz de espírito, ou de evoluir.
Mas nós somos sim. Dignos, herdeiros, e todas essas coisas boas são nossas por
direito. E se eu busco tudo isso pra mim, hoje vejo que não é nada mais justo
que eu solte a garganta daqueles que me feriram intencionalmente ou inconscientemente,
porque isso só fez mal a mim. E se eu quero chegar na minha oração e dizer
“perdoa às nossas dívidas assim como perdoamos aos nossos devedores”, o mínimo
que eu posso fazer por mim, é dar o primeiro passo.
Então, é isso.
Está tudo bem. Eu entendo todos
vocês. Não gostei do que aconteceu entre nós. Gostaria de poder mudar muitas
coisas. Gostaria de poder ter resolvido da melhor maneira quando tive
oportunidade. Sinto muito por ter guardado rancor por todo esse tempo, mesmo
que vocês não soubessem, tampouco desconfiassem que eu ainda sentisse tanta
mágoa. Eu estou resolvendo as coisas dentro de mim, e espero, de coração, que
vocês possam resolver as coisas dentro de vocês também.
Talvez eu só tenha sentido tanto,
porque eu nunca soube amar direito, e sempre achei que vocês DEVIAM ficar pra
sempre comigo: meus amigos, meus amores. Achei que DEVIAM lutar pelas mesmas
causas que as minhas. Mas eu percebo que eu sempre fui egocêntrica e egoísta, e
minha maior dificuldade sempre foi exercer a empatia, e eu honestamente nunca
nem sequer tentei me colocar na posição de vocês (talvez por saber que eu faria
diferente, mas ainda assim, aqui não se trata só do meu ponto de vista, já que
somos seres diferentes). Sinto muito pelo mal que causei a vocês. Sinto muito
por sofrimentos que poderiam ter sido evitados por mim. Sinto muito por não ter
entendido vocês e ter escolhido me afastar de vocês, para o meu bem.
E por fim, eu agradeço, por todas
as lições que aprendi. Agradeço por terem cruzado meu caminho. Agradeço pelo
nosso breve encontro na caminhada da vida. Todas as experiências que vivemos, e
que eu possa ter julgado como ruins, serviram para fazer de mim a pessoa que
sou hoje, e chegar neste momento crítico de perceber que vocês não fizeram nada
para mim, porque eu não sou passiva na vida. Eu permiti que tudo acontecesse.
Quem sabe, porque eu no fundo, sempre soube que seria necessário para a minha
evolução. E para ajudar outras pessoas a entender o mesmo que hoje eu entendo.
Sou grata a vocês por tudo, pois reconheço que, os que mais me “fizeram
sofrer/mal” foram os maiores professores (as) na escola da MINHA vida, até
hoje.
Vocês estão livres de qualquer
mal que eu um dia possa ter desejado a vocês.
Espero que sejam felizes.
Espero que vivam bem.
Espero que estejam em paz.
Eu amo vocês. (Vai ver foi por
isso que tudo doeu tanto, não é? Mas tá tudo bem, rs, eu entendo)
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