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adultescência

  Curioso o pensamento que temos quando estamos no auge dos nossos 15 anos. Achamos que sabemos de tudo. Achamos que nossas dores são as mais importantes, e que nossos problemas não têm solução. Fazemos tempestades em gotas d’agua, acreditamos que o mundo é um lugar cruel e injusto, queremos sempre ser os donos da razão. Achamos que o tempo passa demasiado devagar, e ansiamos pela maioridade. Ansiamos por sermos adultos. Donos de nós mesmos. Assim não precisaremos mais dar satisfação da nossa vida, nem pedir autorização dos responsáveis por nós, e que trabalharemos o suficiente para comprar e ter tudo aquilo que queremos. Aquilo que falhamos em ver, é que o tempo corre, como se tivesse doze pernas. Após os 15, o tempo cria asas, e daqui a pouco, você está sentado numa lanchonete, com 20 e tantos, quase trinta, com meia dúzia de amigos com quem ainda mantém contato, se perguntando o que foi que aconteceu com o tempo, e como foi que ele passou tão rápido. Neste ponto, nos seus so...
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eu depois que você chegou

  Quando você chegou eu estava com medo. Estava aflita, insegura, novamente pensando mil vezes e ponderando se valia a pena abrir o coração tão cedo, nem tive tanto tempo para cuidar de mim e ter só a minha companhia e estava aprendendo a amar minha solitude. Pensei muito se devia dar uma chance para tentar ou aproveitar por mais um tempo minha solteirice. Você que é todo ansioso, estava cheio de medos, e de histórias mal resolvidas – assim como eu - você, que fala “pelos cotovelos”, fala mais que a boca, parece uma matraca, arrebentou as janelas e se forçou soturnamente para dentro da minha vida. Quando eu vi, tudo que era meu já era seu, e todas as minhas coisas e meu espaço já era menos meu e mais nosso, e meus travesseiros tinham seu cheiro. Você com seus papos inteligentes, e nenhuma lábia, ou malícia, reclamando de tudo que você detesta nesse lugar, e de como você amava o lugar de onde veio, e de como sentia saudades da boa vida que você tinha, saiu derrubando meus muros,...

Sobre perdão

  Eu estava na água. Não sei dizer se era um rio, um lago, uma piscina ou um copo. Batia meus pés freneticamente tentando manter minha cabeça acima da superfície, para que eu conseguisse minimamente puxar algum ar. O desespero por não conseguir encostar os pés no chão já me dominava, e estava impossível me manter calma. Não sabia como me acalmar. As ondas de água que chegavam até mim eram causadas pelo bater dos meus pés e braços. Não haviam outras ondas senão aquelas. Quando percebi aquilo, eu voltei para mim. Tive uma epifania. Eu poderia continuar a me debater e me afogar no mar das minhas dores para sempre, me desesperando, esperando uma ajuda externa, culpando todos os outros pelo “mal” que me causaram, e deixando minha própria vida estagnar, quando essas pessoas nem sequer devem saber que fazem parte do meu mar de mágoas; ou eu poderia me acalmar. Respirar fundo, e deixar meu corpo leve, o que me faria boiar sobre a água. O meu problema na verdade nunca foram as s...

Transbordar

Eu sempre estive namorando. Aliás, estou a mais tempo envolvida em relacionamentos do que tive a chance de me conhecer sem alguém ao lado. Percebo hoje, inclusive, como tem sido difícil encarar minha vida só comigo. Acho que todo esse tempo eu apenas estive procurando por alguém que pudesse preencher os espaços do meu vazio existencial. Alguém que encontrasse em mim coisas que eu não via em mim mesma. Que me amasse e admirasse esses detalhes e encontrasse coisas boas em mim, das quais valessem a pena sentir algum orgulho. Penso hoje no quão solitário isso soa. Não acho que as coisas devessem ser dessa forma. Minha dependência nos meus relacionamentos, ou a minha “entrega” talvez não fosse pelo sentimento que eu tivesse por meu parceiro em si, mas fosse a dependência de querer ter alguém ao meu lado que quisesse estar comigo, e apreciasse a minha companhia. Alguém a quem eu pudesse ter alguma utilidade, e que valorizasse a mim, como eu não podia fazer por mim. Veja...

Descobrindo a individualidade

É engraçado como levamos tempo pra começar a entender as estranhezas de sermos nós mesmos. Passamos a maior parte do tempo, na infância e adolescência com aquela sensação de que devemos pertencer. Pertencer à um grupo, fazer parte dos rituais e compartilhar dos mesmo pensamentos e ideias, para "ter um lugar no mundo"; e, conforme a idade avança, essa sensação de pertencimento vai começando a deixar de fazer sentido.  "Porque eu tenho que pensar igual fulano?", "eu não concordo com o que beltrano faz" passam a ser pensamentos frequentes, e então fazer parte do grupo parece irreal, falso e superficial. Passamos tanto tempo imersos na coletividade que sequer sabemos lidar com nosso "eu" quando estamos sozinhos. Não estou dizendo que viver sozinho é a melhor solução, não é isso. Nós precisamos de amigos. Amigos, não grupos. Amigos que aceitam e respeitam a nossa individualidade. Não grupos que  encarceram e aprisionam no pensar coletivo. N...

Abuso (+18)

Hoje eu preparei uma aula cujo tema foi "violência", o que ao meu ver parecia ser algo bacana, apesar de pesado, para discutir... No caso, a violência contra outros: mulheres, homens, crianças, idosos, deficientes, etc. Falamos sobre tipos de violência: física e psicológica, e também sobre as ramificações de motivos que podem desencadear atitudes violentas: intolerância, preconceito, abuso de autoridade, reafirmação de poder, sexismo, entre outros. Enquanto compartilhávamos experiências com algum contato violento em um momento da vida, eu, Rouxinol, me permiti voar ao passado. Alguns acontecimentos muito distantes, outros, nem tão distantes assim, e senti que talvez fosse a hora de falar abertamente sobre essas feridas, para que elas afinal cicatrizem. Aviso logo, que o conteúdo deste texto pode ser um pouco pesado, e caso você seja uma pessoa que se impressiona facilmente, ou seja sensível a certos conteúdos, por favor não prossiga. Sugiro que abandone a leitura a...

Rotina

 Acho que estou indo bem e de repente tudo fica ofuscado, eu perco a noção e o controle, e aí o desespero toma conta.   Faz um bom desde o meu último pico - o mais feio foi no finalzinho de janeiro . Não imaginei nunca que eu voltaria a pensar em suicídio, ou mesmo que eu tentaria, mas eu fiz, e fiquei 5 HORAS conversando com o pessoal do CVV. O que me fez chegar à conclusão que eu precisava de ajuda.  Nem preciso falar sobre o valor absurdo que é a consulta com especialistas, não é? então, ainda estou numa lista de espera pra ser atendida. Nesse meio tempo, vou vivendo como dá. Um dia após o outro.    Confesso que mais uma vez, encontrei meu abrigo em Deus , que tem me acolhido e me carregado no colo nos dias mais difíceis, e isso tem me dado algum conforto.   Em alguns momentos tenho lapsos de lucidez, outros tenho lapsos emocionais e acabo metendo os pés pelas mãos: consigo analisar situações friamente, e depois de analisá-las eu tom...