Hoje eu preparei uma aula cujo tema foi "violência", o que ao meu ver parecia ser algo bacana, apesar de pesado, para discutir... No caso, a violência contra outros: mulheres, homens, crianças, idosos, deficientes, etc.
Falamos sobre tipos de violência: física e psicológica, e também sobre as ramificações de motivos que podem desencadear atitudes violentas: intolerância, preconceito, abuso de autoridade, reafirmação de poder, sexismo, entre outros.
Enquanto compartilhávamos experiências com algum contato violento em um momento da vida, eu, Rouxinol, me permiti voar ao passado. Alguns acontecimentos muito distantes, outros, nem tão distantes assim, e senti que talvez fosse a hora de falar abertamente sobre essas feridas, para que elas afinal cicatrizem.
Aviso logo, que o conteúdo deste texto pode ser um pouco pesado, e caso você seja uma pessoa que se impressiona facilmente, ou seja sensível a certos conteúdos, por favor não prossiga. Sugiro que abandone a leitura aqui mesmo. Caso resolva prosseguir, peço que olhe com empatia, tanto para mim, quanto para as pessoas a quem me refiro, pois há muito já estão perdoadas.
"Quando eu tinha dez anos, me lembro claramente deste dia, eu estava na cozinha de casa, lavando a louça. Não lembro onde minhas irmãs estavam, mas lembro que eu estava na cozinha sozinha e que não havia ninguém na sala. Meu pai estava fazendo um trabalho -de pintura, eu acho- em uma das casas do condomínio, com a ajuda de um primo, considerado amigo da nossa família, pois ele era muito próximo de nós e se não me engano, ele era mais velho do que meu pai.
Esse homem, em um momento de intervalo, resolveu ir até em casa, e ele vinha com meu pai, para tomar café, mas, não sei o porquê, meu pai acabou não entrando com ele em casa, e ele foi sozinho.
Como eu disse, eu estava na cozinha, lavando a louça, de costas para a porta. Eu percebi a presença dele na cozinha, mas continuei lavando a louça esperando que meu pai também entrasse em casa...
Ele colocou seu café na xícara, e bebeu - não sei se tudo -, pouco tempo depois, me puxou pelo braço fazendo eu virar de frente para ele... Ele me beijou (pausa aqui porque estou nauseada e enojada, me deem um minuto...).
Ah, sim. Ele me beijou, e começou a apalpar meu corpo, colocando sua mão dentro do meu short. O tempo não passava nunca, e eu só queria sair correndo dali, mas eu estava paralisada, o que eu poderia fazer? Eu estava em choque. Até que ele ouviu o barulho do meu pai se aproximando, e me soltou. Com aquele dedo nojento fez um sinal de "shhh", me alertando para que eu não falasse nada, e saiu da cozinha lambendo o dedo." (gente, serio estou muito enojada aqui).
Seis anos depois, estávamos em família conversando, e em determinado momento da conversa, esse homem virou o assunto. Há muitos anos que não tínhamos contato com ele, e descobrimos que ele estava entre a vida e a morte com câncer. Quando eu ouvi, falei bem alto: "bem feito, tomara que morra, e que apodreça queimando no inferno". Minha família ficou chocada, pois eu nunca havia feito comentário algum sequer sobre ele ou sobre aquele episódio (que foi o único graças a Deus), até que acabei contando a todos. Meu pai ficou estático, vermelho, e acho impossível saber o que se passava na cabeça dele. Minha mãe, também ficou chocada, e confesso que nunca mais tocamos nesse assunto e eles não me fizeram mais perguntas.
Bom, esquisito demais ter que dizer que meu primeiro beijo foi aos 10 anos com um amigo da família pedófilo, mas foi isso. Digo que ele foi perdoado, porque creio que ele sofreu bastante, e somente Deus é quem tem o poder de condenar ou absolver.
Dizer que esse episódio não surtiu efeito em mim, ou não houveram consequências posteriores seria um equívoco, pois devido à isso, muitas outras situações de abuso eu permiti e me mantive omissa e aceitei, por achar que eu merecia. (mas isso é para uma próxima postagem);
Eu disse no início que compartilharia com vocês algumas experiências, e essa é uma das que não são positivas, e que inclusive estão no caminho para ativar meu gatilho da depressão. Mas falar sobre isso é libertador para mim. Parece que estou me livrando de um peso, ao perceber que a culpa NÃO foi minha. Eu só tinha 10 anos, como eu poderia ter provocado isso? Será que meu short estava muito curto? Porquê não gritei? Porquê não joguei água ou café quente nele? Não havia o que eu pudesse fazer... E hoje eu não me culpo mais por isso. Ainda tenho uma batalha interna absurda por me sentir suja, quebrada, indigna... principalmente se isso significar ter um relacionamento com outra pessoa. Mas estou aprendendo a me perdoar também. Eu era só uma criança.
O que eu fiz pra superar? Estou no processo, aprendendo inclusive sobre o perdão, e essa força vem de Deus. Isso é verdade. Deus disse à mim que eu tenho jeito, então eu só vivo um dia após o outro, e procuro não ficar relembrando, porque a situação ainda é bastante indigesta. As vezes preciso ficar ouvindo e me repetindo que eu não tive culpa, até eu conseguir acreditar nisso, e aí passa, e fico muito tempo sem lembrar (isso é, passam-se anos sem que eu me lembre). Mas como disse, as consequências disso, ficaram no subconsciente, na forma como me relaciono com as pessoas, namorados, amigos, família, enfim...
Mas estou viva. Tenho uma família cheia de amor, maravilhosa, carinhosa e presente, tenho amigos sensíveis, e tenho a melhor companhia do mundo (Deus), então, qual ferida que não pode ser cicatrizada, não é mesmo? Além disso, tenho o melhor remédio: tempo. Todo o tempo do mundo.
E tudo tudo passa...
Até a uva.
Ah, esse foi o vídeo que eu usei para iniciar a discussão sobre violência na aula de hoje. Conheci esse vídeo por meio da Thalita Lima. Muito obrigada, miga
Podem ficar à vontade para comentar, seja a postagem ou o vídeo ou os dois.
Prometo que vou responder.
Obrigada <3
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